Cenas de uma fila

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Um dia, meu filho e eu fomos ver a exposição “Picasso e a modernidade espanhola”, no Centro Cultural Banco do Brasil.

A fila andou mais rápido do que imaginamos.

Mas se não imaginássemos tantas bestagens naquele tempo, a fila teria passado com profunda vagareza.

Imaginar bestagens numa fila nos enche o dia de importâncias.

De importância ganhada, à nossa frente, vimos um casal que dava um beijo de parar exposição.

Bem, tem uns beijos que também tiram vagareza de fila.

Atrás de nós, outro casal reclamava do tempo perdido naquela espera.

Pensei em sugerir que dessem uns beijos na boca.

Desisti quando vi que eles olhavam mais no celular que no olho um do outro.

Quem sabe Picasso teria se inspirado neles?

Acho que pintaria uns olhos grandes feito relógios parados, ou uns relógios imensos feito olhos sem corda, quem sabe?

– Ele pinta umas coisas feias tão tocantes – meu filho me disse, quase no final da exposição.

Na saída, depois de gastarmos o olho em tudo o que nos tocava, o Gabriel abriu os braços para uma funcionária do CCBB, se despedindo dela com a sugestão de um abraço.

– Me desculpa, eu não posso aceitar – a moça disse a ele, sorrindo.

Ficamos pensando nas razões que existiriam para ela não poder aceitar um abraço, e (ainda mais importante) nos motivos mais íntimos que a paralisavam e não a deixavam desobedecer aquele impedimento?

Que bom que não carecemos de uma fila para imaginar bestagens.

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