Uma coisa de virar dentro

“Márcio,
Fiz uma séria pesquisa sobre deficientes visuais para a elaboração de um personagem. Algumas escolas públicas possuem turmas somente para cegos. Apesar dos esforços dos professores, percebi que a realidade enxerga o deficiente visual com preconceitos, com dificuldades, com barreiras que afastam o encantamento. Mas existem as exceções. E quando isso acontece, o encantamento é recíproco. Gostaria que comentasse sobre o papel do encantamento como uma ‘resposta’ para a sociedade.
– Ricardo Rodrigues, escritor e dono de açougues, São João de Meriti, RJ.

Ricardo,

Outro dia, vi de longe uma moça cega andando na calçada, aqui em Copacabana. Ela estava carregando umas sacolas de supermercado. Todo mundo passava do lado dela como se aquela mulher fosse invisível. E eu  acho que a falta de reparo também é um tipo de cegueira. Então, enquanto apertava o passo para chegar até a moça, me perguntei se é a pressa que tira a nossa capacidade de reparar, ou se é a nossa incapacidade de reparar que leva à pressa. Mas eu tinha coisa mais importante para fazer que catar resposta para pergunta sem serventia. E fiquei pensando que a gente não deve buscar o encantamento como uma resposta para a sociedade, Ricardo. A busca pelo encantamento precisa ser, mais do que tudo, um impulso amoroso de servir, um impulso de quem simplesmente não resiste à beleza, sem esperar respostas. Assim, não resisti ao meu impulso e corri até a dona das sacolas para perguntar se podia ajudá-la. De perto, vi que ela era ainda mais bonita que todas as mais súbitas vontades de servir.

O nome dela era Bianca. E com um sorriso todo chegado, ela me disse que sim, que eu podia ajudá-la, que na realidade eu devia ajudá-la, e me pediu: ‘Só toma cuidado, porque essa sacola aqui tem uma coisa de virar dentro’. E eu confessei para a Bianca: ‘Você não deveria ter me dito isso, Bianca. Agora eu vou passar o dia me revirando por dentro para saber que coisa é essa que se vira escondida aqui.’ Ela me deu um riso de durar o dia todo. Fomos conversando sobre amenidades. Se é que a gente pode chamar de amenidades tudo o que aproxima as pessoas. ‘É, o tempo está louco mesmo, mas eu acho que ele enlouqueceu só para chamar a atenção da gente, Bianca’. Atravessamos a rua, sem chamar atenção de quase ninguém. ‘Vou ficar na loja dessa esquina’, ela me avisou. E era uma loja de lingeries caros. No meu preconceito de homem abestalhado, que costuma ter mais gosto pelo que vê do que pelo que imagina, me perguntei por que a Bianca compraria lingeries caros e bonitos, se não poderia olhar para eles. E depois que a gente se despediu, enquanto ela entrava na loja, tive clareza de que uma mulher não compra lingerie só para botar o olho nele, obviamente. Ela compra pela mão na textura, pelo desejo de imaginar, para ganhar asa, para se sentir mais bela, para deixar o dia dela mais leve, para tirar suspiro de alguém, para suspirar também.

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