Um reparo que faz diferença

“Márcio,

Por muito tempo, sempre tive paixão pela minha profissão. Ultimamente, por vários fatores como: rotina burocrática estressante – feita muitas vezes para “inglês ver”, a falta de ética e valores de alguns colegas de trabalho, as agressões dos alunos, a intolerância dos pais, a falta de valorização e incentivo profissional, além de uma, quase imperceptível pressão social para que o educador, todos os dias tenha que estar de bom humor, utilizar ferramentas de outros profissionais, como a psicologia e a assistência social, e se revestir muitas vezes de enfermeiro, bem como, por vezes assumir o papel de pai. Por tudo isso, a frustração tem si do constante. O encantamento é possível? Reconheço que, no início da carreira, conseguia encantar-me e encantar. Hoje tem sido cada vez mais difícil.
– Paulo Fernando Reguly, professor, Caxias do Sul/RS.

Paulo,

Admiro um bocado o trabalho de tantos professores. Nas minhas viagens pelo Brasil, tenho me emocionado de verdade com muitos deles, com o trabalho inspirador que muitos são capazes de fazer, às vezes nos lugares mais sem nada do universo. E não me canso de lembrar no quanto vários deles fazem uma diferença tão bela na vida de tanta gente, inclusive na minha.  

Mas não é a rotina estressante, a ausência de valores dos outros, as agressões dos alunos, a intolerância dos pais, as pressões sociais e a falta de valorização profissional que tiram o encantamento de um professor, Paulo. Tudo isso desgasta mais que maresia brava, claro. Mas o que tira mesmo o encantamento de um professor é o modo como ele deixa de reparar nele mesmo, para reparar mais todas essas superfícies à sua volta. É óbvio que essas superfícies existem e precisam do seu mais lúcido reparo, até para que você possa lidar com elas da forma mais sensata, mais amorosa, mais surpreendente e mais sábia possível.

Só que, para lidar com o que está em volta, você precisa se reparar ainda mais. Você não tem mais o frescor do início da sua carreira? Tudo bem, não tente recuperá-lo. Afinal, você é outro, as circunstâncias são outras, o seu modo de olhar para tudo também é outro. Assim, não busque o frescor do início, nem tente ser bem humorado e encantador para ganhar aplausos, ser aceito e bem-sucedido. Isso só vai provocar um bocado de outras frustrações, meu caro professor, porque você estará tentando mudar para atender primeiro aos outros e só depois a você. Minha sugestão: busque a leveza na sua vida, como uma prioridade realmente prioritária. Não para ser encantador com as pessoas, dar uma aula flutuando e tirar peso do peito quando estiver na sala dos professores.

Com o tempo, essas podem ser belas consequências da sua mudança, sim. Mas enquanto você buscar as consequências, continuará reparando mais nos outros que em você mesmo. É só quando reparar fundo em você mesmo e nas pequenas coisas que podem dar leveza no seu dia a dia que você poderá, passo a passo, se encantar e ser cada vez mais encantador, não só na sala de aula, mas fora dela também.

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