Sobre meninos e homens

“Querido Márcio,

Meu filho tem 10 anos, aquela idade em que os meninos já se acham quase homens. Quando lemos os seus livros juntos, por exemplo, apesar de perceber o encantamento que despertam, vejo que ele demonstra enorme resistência e faz comentários do tipo “minha priminha de três anos vai gostar dessa história”. Por essas e outras acho que ele está de fato crescendo e que eu, como mãe, devo tratá-lo como um rapaz e não como um menino. Só que outro dia quando falei que estava com saudade de brincar com as pistas e carrinhos de corrida e perguntei se ele toparia brincar um pouco, ele, sorrindo, balançou com a cabeça dizendo que sim. Daí percebi que ele ainda é um meninão. É verdade, Márcio, que os meninos nunca crescem?”

– Simone Barra, cantora e compositora, Rio de Janeiro, RJ.

Querida Simone, minha cantora favorita…


Tenho 42 anos, aquela idade em que os homens já se acham quase meninos. No fundo, acho que é isso o que acontece: quando somos meninos, passamos a vida tentando ser homens, e quando nos tornamos homens, passamos a vida tentando ser meninos, cada um ao seu modo, no seu tempo, no seu ritmo, na sua medida.

Será que achar a medida entre continuar menino e crescer é uma vocação, um destino, um desatino, uma benção, um exercício, uma danação, um talento, uma escolha? Acho que pode ser um bocado de coisas, Simone. Na realidade, nem todos os meninos crescem como precisam crescer, e nem todos os homens se permitem ser meninos do jeito que tanto carecem.

Saber de que forma e em que momento tratar um menino como rapaz e um rapaz como menino é uma arte. Porém, eu estava aqui pensando. De vez em quando, faço isso. Então, mais do que tudo, será que o Thiago estava com vontade de brincar de carrinhos, ou de brincar com a mãe dele? Quem sabe as duas coisas? Ah, eu achei emocionante saber que você falou para o moleque sobre a sua saudade de brincar com as pistas e os carros de corrida dele. Mais do que exibir um profundo interesse amoroso pelo seu filho, na realidade, você mostrou para ele o quanto também precisa brincar, mesmo depois de crescida. Isso vai ficar para sempre na ideia dele. Tudo bem, talvez ele não pense agora que, quando te deu um sorriso de cabeça balançada, estava te permitindo brincar também. Talvez o seu menino ache que você só estava ali brincando por ele. Quem sabe? Os meninos acham tantas coisas, Simone. Bem, só sei que essa sua pergunta me deu uma vontade irresistível de brincar. Acho que vou usar o meu filho para isso, mais tarde. Tenho que achar as pistas e os carrinhos de corrida do Gabriel, onde será que estão, onde será que estão? Não, mas eu não posso te copiar. Não assim, de forma tão descarada. Ou será que posso? Pode ser que eu também brinque com o Gabriel de meter a cara numa manga rosa, do jeito que a gente bem gosta de fazer. Cada um com a sua manga espalhada e descabelada na mão. Quem se melar mais, e com menos pressa, ganha um riso descascado na hora e pode mangar do outro. Pode ser, pode ser… Quer uma confissão, Simone? Mangas e mangações à parte, ou incluídas, tem momentos tão mágicos, tão deliciosos e tão urgentes de viver que a gente tem vontade de comer com casca e tudo. 

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