Sem prazo para ser feliz

“Márcio,

Lembro-me com imensa felicidade de uma palestra que destes aqui em Porto Alegre. Tenho diversas questões para a tua coluna, mas hoje vou mandar só uma para ti. Ainda nem te fiz a minha pergunta e já estou ansiosa pela tua resposta. Mas vamos lá. O fato é que muitas decepções e muitos erros tiraram o encantamento da minha vida. Por isso, quando puderes, me digas, tu achas mesmo que é possível educar para o encantamento uma pessoa que, apesar de não ter nem 30 anos, já está tão desencantada pela vida? Apesar desse constatado desencanto, mesmo diante de todas as inúmeras dificuldades do ofício, é no ensino do balé que me realizo e ainda vislumbro um pouco do brilho que não consigo mais enxergar no cotidiano nem nas minhas relações pessoais e afetivas. Sinceramente, espero passar esse brilho para as minhas alunas, mas, sobretudo depois que comecei a te ler, passei a me preocupar se estou sendo de corpo e alma uma boa professora para elas. Enfim, tenho lido cada vez mais encantada a tua coluna, mas não sinto encanto pelo meu dia a dia. O que tu achas? Tens uma saída de emergência para mim?”

– Clarissa Silveira, professora de balé, Porto Alegre, RS.

Clarissa,

Por que será que você está buscando uma saída de emergência? Nem toda saída leva a algum lugar. E nem sempre ir a algum lugar é o que deixa todo mundo bem. Pelo menos é assim que eu penso. Mas, afinal, de onde você mais quer sair? Em vez disso, que tal ficar, respirar, se acalmar, e ir se amansando aos poucos, até para depois realmente sair, se for o caso, sem precisar correr desembestada, cheia de pressa, como se tivesse prazo para ser feliz?

Minha avó Fófa, de 91 anos, se encanta com poesia dita sem gritos e com o brilho do sal na batata frita. É belo quando ela senta comigo no restaurante do clube, aonde a gente sempre vai, para me falar das suas clarezas, e pede uma porção de fritas, para dividi-la comigo, sem precisar de nenhuma criança em volta para justificar esse seu desejo legítimo. É isso, Clarissa. Ser feliz não é uma promoção com tempo limitado. Não é em ritmo de pronto socorro que você vai meter encantamento na sua rotina e passar encantamento para as suas alunas de balé. Uma bailarina sempre carece de demora para flutuar, você concorda? Não importa se você vai flutuar sozinha, ou num pas de deux, às oito da manhã. O importante é sentir a dança subindo, descendo, parando, latejando dentro de você; desdobrar esse latejo e essa paixão para o seu cotidiano, e trazer para a dança a beleza e a taquicardia do seu dia a dia.

Ah, e olha, não acho que sejam as decepções, os fracassos e as frustrações que tiram o encantamento da nossa vida, mas sim o que nós fazemos com esses sentimentos, e, principalmente, o que nós deixamos que esses sentimentos façam conosco. O que você está fazendo com os seus sentimentos? O que eles estão fazendo com você? Não dance para passar brilho. Dance porque é irresistível dançar.

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