Para se jogar nos braços da beleza

“Oi Vassallo, querido escritor,

Li em teu site a bonita e importante mensagem de uma conterrânea minha, a professora Marília Coimbra, de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Fiquei tocada com a paixão dela pelo ofício e fui tomada pelo desejo de que minha filha (hoje com seis anos) tenha sempre professores dedicados e empenhados como essa moça sensível. Porém, imagino que a Marília tenha provocado uma polêmica pela assumida pretensão dela em se declarar sua maior leitora (hehehe)! Ok, não entrarei na provavelmente já acirrada disputa por esse título, apesar de não conseguir imaginar alguém que leia e recomende mais os teus livros do que eu (hehe). Quem sabe sou tua maior estudiosa?  Resolvido, sem discussões: sou tua maior estudiosa! Entretanto, antes que fiques cansado de ler cartas de leitoras pretensiosas e decidas não me responder (nem penses nessa possibilidade, please!!!), gostaria de te contar que coordeno workshops de psicanálise aqui em Salvador, onde moro, e tenho trabalhado ao longo de seis anos teu lindo livro A fada afilhada com sucessivas turmas de estudantes e profissionais da área, incluindo centenas de participantes até hoje. Então, com indisfarçável orgulho te digo que a experiência tem sido um baita sucesso, emocionante e recompensador.

Discutida, trabalhada e revirada pelo avesso, tua personagem Beatriz (a fada afilhada) tem nos inspirado demais em nossos atendimentos e também na reconstrução de nossas próprias identidades. Conclusão de tua maior estudiosa: esse seu livro é uma obra prima indispensável para quem trabalha com psicanálise e para todos que desejam compreender um pouco mais o que se passa no coração e na mente das pessoas que têm vocação para cuidar dos outros o tempo todo e acabam invariavelmente se esquecendo delas mesmas. Agora te mando a minha pergunta: onde buscastes inspiração para escrever uma história tão maravilhosa quanto A fada afilhada? Outra: como tu achas inspiração para escrever de forma tão encantadora?

– Ana Cláudia Miranda, psicanalista, Salvador – Bahia.

Oi Ana Cláudia,

Adorei essa sua mensagem tão generosa e bem humorada. Estou me sentindo com muita serventia por causa dessa história de ser estudado, viu? Fico um bocado feliz de saber que a minha fada afilhada tem sido revirada pelo avesso por você e tantas pessoas interessadas.

Mas olha, Ana Cláudia, acho que se um escritor busca inspiração para só escrever de forma encantadora não vai conseguir chegar ao coração do leitor, não. Para mim, escrever de forma encantadora precisa ser uma consequência de viver com encantamento, apesar das pequenas e grandes dores, perdas, faltas e desilusões que às vezes o dia a dia nos traz.

Sobre como nasceu o meu livro, um dia, sem explicação aparente, pensei nesse título: A fada afilhada. Achei que dava um título com boa sonoridade para uma história e fiquei repetindo para mim mesmo: a fada afilhada, a fada afilhada, a fada afilhada, a fada afilhada… Depois fiquei me perguntando de quem ela era afilhada, mas não conseguia achar uma resposta. Até que fui entrevistar o Oswaldo Montenegro, para conversar sobre o Vale encantado, livro que ele estava lançando na época, em 1995, se não me engano. A entrevista foi inusitada, dentro de um táxi, a caminho do aeroporto Santos Dumont, aqui no Rio. E no percurso perguntei para o Oswaldo: “Uma das suas personagens é a Fada Azul, que cuida de todo mundo o tempo todo. Mas, afinal, quem é que cuida da Fada Azul?”. Então, o Oswaldo ficou parado por alguns segundos, dentro daquele táxi, me olhando sem dizer nada, e depois brincou me dizendo que aquela era a pergunta mais inteligente que já tinham feito para ele na vida. “É o drama do protetor”, concluiu o cantor. Exageros à parte, achei interessante alguém ter gostado tanto assim daquela pergunta, fiquei com ela me puxando durante dias, e resolvi escrever para achar essa resposta. Bem, mas em vez de achar uma só resposta (o que seria super sem graça) encontrei a minha fada Beatriz, se oferecendo para mim, para que eu contasse a história dela, uma fada madrinha toda carecida de reparo, com o ouvido vermelho de tanto ouvir pessoas no telefone celular e cheia de dor nas costas de tanto colocar gente no colo.

Uma vez, num encontro de escritores, tomando café da manhã comigo em Paraty, minha querida amiga Marina Colasanti me disse que a fada afilhada tem muito de mim. Concordei com ela e constatei que esse fato me inspirou também quando escrevi a história da Beatriz, mesmo sem ter pensado nisso quando estava criando. Costumo dizer que tudo o que inspira a minha vida, de algum modo, inspira o meu trabalho, e tudo o que inspira o meu trabalho, de uma forma ou de outra, acaba inspirando a minha vida. Ah, e viver com encantamento é se jogar nos braços da beleza. Afinal, como diz a poeta Sheila Gruma, ninguém é feliz bonitinho, arrumadinho, retinho. “Na felicidade, tudo é escancarado, desarrumado, esgarçado” , escreveu a Sheila. E eu penso que o encantamento é uma das coisas que mais escancaram, desarrumam e esgarçam a gente, Ana Cláudia. O encantamento é um abridor de felicidade. Mas ele só pode abrir o que já existe.

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