Para onde nos levam as perguntas mais importantes?

“Márcio,
Estou precisando de ilusão para cair na realidade. Então, me dê uma dica, um modo de sair dessa insatisfação que não me deixa sentar e escrever, essa coisa que me critica e me faz me dispersar… O que faço, meu amigo, para criar nesse perigo? Para domar esse inimigo? Essa é a minha pergunta. Me responda, me diga como decifrar-me, para que eu não me devore mais! Me responda como faço para sentar e escrever o que vim criar nessa pouca vida.
– Claudia Alencar, atriz e poeta.

Claudia, minha amiga querida,

Antes de tudo, não saia dessa sua insatisfação nem deixe que ela saia de você. O Mario Quintana, meu I Ching, dizia que um poeta satisfeito não satisfaz. E é isso mesmo. Não é a insatisfação que está te dispersando, te travando, te paralisando, te afastando da poesia, Claudia. Foi por causa de uma insatisfação, de um desassossego e de uma inquietude que você escreveu esta frase tão deliciosa: “Estou precisando de ilusão para cair na realidade”.

Na realidade, uma das coisas que nos afastam da poesia é o nosso desejo apressado de respostas. Será que eu vou escrever um poema que me decifre? Será que essa minha decifração vai impedir que eu me devore? Será que eu careço mesmo me decifrar, ou são os véus e as brumas que, no fundo, mais alimentam a minha vontade de beleza? Será que eu quero respostas de fechar ou perguntas de esgarçar? Ah, Claudia, tem perguntas que nos abrem, nos movem, nos inquietam, nos provocam, nos seduzem para escrever, você concorda? E o que será que mais te seduz para escrever? Tudo o que te tira o sono, o ar, o chão? As perguntas mais importantes não nos levam a respostas definitivas. Elas nos levam às nossas mais simples, profundas e belas verdades interiores.

Então, não se cobre tanto, poeta. Eu já conheço o seu talento, escrevendo e em cena. Quem carece de ilusão para cair na realidade já tem nas mãos uma chave de abrir encantamento. Continue carecendo, sem pressa. Já imaginou um escritor sem faltas, sem vazios, sem dispersões? É da dispersão que nasce o reparo; é do reparo que nasce o silêncio. E é do silêncio, daquele silêncio de boca aberta na frente do que é belo e perturbador, é desse silêncio que nasce a poesia.

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