Crítica do livro “Mães”

 

O primeiro contato com o livro, como normalmente acontece, se deu na introdução. E ali já me ganhou. Porque a fonte de onde Márcio Vassallo tirou a vontade de fazer o seu Mães: o que elas têm a dizer sobre educação, me pareceu algo de extrema importância. Uma de suas muitas amigas, em uma das muitas conversas que este “conversador” deve ter tido, colocou em pauta simplesmente a seguinte questão: “por que as mães não são mais escutadas, por que elas não poderiam contribuir mais com o pensamento científico, se afinal, ninguém conhece melhor os filhos do que as próprias mães?”

Me alegrei somente pelo fato de que estaria numa mesa com a possibilidade de trocar idéias sobre isto. Não só porque também sou mãe, mas porque sou psicanalista, e antes disso, psicóloga e todos sabem que há um saber enorme depositado nos psis. Mas acontece que a psicologia como ciência também é fruto de tempos em que a ciência absorvia para si o saber e revelava-se a fonte das explicações possíveis e comprovadas, opondo-se a um pensamento mágico e até por que não dizer, religioso. Para se afirmar a ciência precisa de alguma dose de imposição.

A psicanálise que tudo explica, principalmente o que o paciente não sabe dele mesmo, pagou um preço alto. Muitas e muitas pessoas afastaram-se dos psicanalistas, estes feiticeiros enigmáticos e misteriosos, com sua postura muitas vezes francamente arrogante. Hoje posso dizer num breve resumo que daquele modelo de uma psicanálise de um que sabe para outro que não sabe, estamos chegando no modelo da psicanálise onde há dois que não sabem e que juntos vão construir uma história. Resgatemos o que há por baixo dos escombros, mas também nos ocupemos de construir uma civilização.

Tanto é assim que um dos autores mais estudados atualmente chama-se Donald Winnicott. Este inglês de tradição metodista não conformista “criou” um termo para denominar a mãe devotada comum. A mãe do livro de Márcio: “Mãe suficientemente boa”. A mãe suficientemente boa é aquela que no início adapta-se completamente às necessidades do bebê e que aos poucos o vai desiludindo, ou seja, vai falhando, na exata medida em que a criança tem condições de tolerar esta falha. Na maioria das vezes, diz Winnicott, a mãe sabe o que fazer com seus filhos.

Estava pensando que o espaço que Márcio abre para ouvir pelo lado de dentro é absolutamente encorajador para a retomada do que é natural. Quando tive meus filhos pude sentir na pele a quantidade de regras e parâmetros vindos de fora e que com certeza atrapalharam o meu vir-a-ser como mãe. Atrapalharam minha criatividade. A ditadura da amamentação no peito é um destes exemplos. As mães que não conseguem, seja por que motivo for, amamentar o filho no peito, podem assinar o atestado de incompetência para ser mãe. Para não receber este atestado as mãe muitas vezes chegam a privar os filhos de alimentação. Toda esta ciranda em volta da amamentação pode criar um clima de angústia, quando não de desespero, com efeitos negativos para a formação do vínculo mãe/bebê.

Claro que nem sempre é assim. Os filhos são como nossos pacientes. São enigmas que nos chegam, os quais vamos desmembrando fibra por fibra.”. Um dos valores do livro de Márcio foi mostrar que a maternidade não é somente um dom divino, mas um árduo trabalho, que admite falhas e incorreções.

Praticamente todas as entrevistadas consideram-se aprendizes na tarefa, mais do que arte, de ser mãe. O que é muito bom, pois as crianças de modo geral entendem perfeitamente bem o que é errar, tentar acertar, confundir, atrapalhar. Ser gente e criar gente como diz a Cícera (uma das entrevistadas do livro) não parece diferir muito.

Talvez seja por isso que me foi difícil selecionar um poema sobre mães para ilustrar este meu comentário. Achei todos muito sublimes e idealizados, o que funciona para o poema, mas talvez não tanto para o dia-a-dia, o trabalho incansável e detalhado da maternidade. Ou , como melhor disse Márcio: trocando os pneus com o carro em movimento. O melhor é sempre o possível.

– Caroline Milman, psicanalista, em abertura de mesa-redonda na Feira de Porto Alegre. 

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