Colher, semear e podar

“Márcio,
Ensinar é colher ou semear?”
– Guiomar de Grammont, escritora, filósofa e professora, Ouro Preto, MG.

Guiomar,

Na minha ideia, ensinar é colher, semear e podar. Tem horas que a gente precisa podar pensamentos, para colher passos, você não acha?

Há alguns dias conversei com a minha querida amiga Maisa. A Maisa é professora de História na PUC, aqui no Rio. Ela me contou que, certa vez, estava dando uma aula para falar sobre os tempos difíceis da ditadura, em que havia censura e falta de liberdade no Brasil. Na sala de aula, uma das suas alunas disse que, na realidade, estava vivendo esse tempo hoje, porque se sentia sem liberdade nas ruas, limitada, reprimida, acuada, censurada pela ditadura da violência.  Enquanto falava, a estudante ficou embargada. Então, os outros alunos e a professora também se emocionaram com aquela revelação. E assim, depois de intermináveis segundos, diante de uma turma toda calada, a Maisa deu razão para a menina. “Você está certa, eu não tinha pensado nisso”. Em seguida, a estudante pediu desculpas à professora por ter se emocionado. Mas a Maisa explicou para a sua aluna o quanto aquela emoção profunda tinha sido importante para realçar que realmente a censura e a falta de liberdade continuam a existir de outra forma, e também para fazê-la pensar e se emocionar.

Mas esse pensamento e essa emoção só ganharam espaço na sala de aula porque a Maisa estava disponível para eles, com toda a sua sensibilidade. Se a professora só estivesse interessada em passar a sua matéria, se ela só estivesse interessada em semear conteúdos, experiências e conhecimentos, se ela não tivesse interesse em colher o ponto de vista dos seus alunos, aquela menina não acharia frestas para expressar as suas inquietações. Ensinar é abrir frestas. Do mesmo modo, há pessoas que semeiam só para colher, como se o ato de semear fosse um mero passo para uma colheita. Mas semear não é apenas uma etapa essencial da colheita. Também é um momento único e mágico por si só. Semear encantamento é uma forma de colher felicidade. Mas quando alguém semeia só para colher, está pensando apenas na chegada e acaba se esquecendo do percurso. Será que a vida é mais chegada, ou percurso, Guiomar? Melhor que saber é percorrer.

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