Cavar para dentro de mim me faz chegar até o meu filho

“Márcio,
Cavar um buraco na areia, na terra ou no gramado nos leva ao Japão, ou ao encantamento?
– Marina Colasanti, escritora, Rio de Janeiro, RJ.

Marina querida,

Acho que é a disponibilidade para o encantamento que nos leva a cavar buracos, sem pressa, da forma mágica como o meu pai fazia comigo, erguendo intermináveis muralhas de areia para defendermos a praia dos monstros mais terríveis e assustadores de Copacabana. O meu pai sempre teve disponibilidade para o encantamento, Marina. A minha mãe também. Ele me ensinava a transformar um saco de balas na surpresa mais encantadora do dia. Ela me ensinava a olhar para essas e outras pequenas surpresas com a calma amorosa que a gente tanto carece para parar e contemplar coisas aparentemente mais comuns e sem importância.

Ainda vejo pais cavando buracos com os filhos para chegar até o Japão e aproveitando o tempo com eles de todos os modos que a gente possa imaginar. Muitos cavam de coração arreganhado e são felizes por isso. Ou será que eles só cavam de coração arreganhado justamente porque são felizes? Não sei, não sei. Só sei que nem sempre isso acontece. Na realidade, a maioria só consegue cavar de olho grudado no relógio, como se a criança e eles mesmos tivessem prazo para suspirar. E como se suspirar fosse uma meta cercada de cronogramas e planejamentos. O que mais encontro por aí é gente com alma de planilha, que vai para hotel fazenda com os filhos, em nome do tal tempo de qualidade (ah, que expressão horrorosa), e passa quase o tempo todo delegando o riso das crianças a recreadores, respondendo e-mails, atendendo o celular, e tomando decisões com voz de urgência, para toda a mesa do café da manhã escutar. Na realidade, mesmo que depois parem para jogar futebol com os filhos, ou montar a cavalo com eles, mesmo cheios de amor e boas intenções, esses pais não são movidos pelo encantamento. O que os move para cavar geralmente é a culpa provocada pelas suas mais sucessivas ausências, ou presenças cheias de cobranças incessantes. E não conheço ninguém que se encante movido pela culpa, nem quem consiga encantar outras pessoas, sem viver em estado de encantamento, apesar de todas as dores, brigas, decepções e faltas inevitáveis.

O meu pai não cavava comigo para chegar até o Japão simplesmente para ser um bom pai, nem a minha mãe não me ensinava a reparar em belezas novas simplesmente para ser uma boa mãe. Tudo isso simplesmente sempre foi irresistível para eles, como hoje é para mim, quando cavo com o Gabriel. Cavar de verdade para dentro de mim me faz chegar até o meu filho, e chegar até o meu filho me faz cavar ainda mais para dentro de mim. Nem sempre dá certo, claro. Mas que delícia quando dá, Marina, que delícia.

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