A consolação da beleza revelada

“Oi, Márcio, querido amigo,
O discurso do Saramago na cerimônia do prêmio Nobel é de uma beleza incrível, mas a beleza está na simplicidade, e na valorização do que é mais básico e fundamental da vida. Ver um prêmio Nobel homenageando os avôs analfabetos, criadores de porcos, me emocionou muito. Eu conheço várias pessoas assim, que são sábias, preciosas, apesar dos poucos anos de escola, do pouco ou nenhum convívio com os livros. A educação para a vida pode vir de muitos caminhos, não?”

– Lucia Riff, agente literária, Rio de Janeiro – RJ.

Lucia, minha amiga querida,

Só acredito numa educação que seja para a vida, e acho que ela vem, sim, de muitos caminhos, inclusive, às vezes, da própria escola. Vejo várias pessoas confundindo educação para a vida com educação para o resultado, para a competição e para o êxito. Como se o resultado, a competição e o êxito fossem sempre um fim, e não a consequência de todo um caminho.

Nesse discurso belo e emocionante (que eu reproduzo um trecho aqui, depois dessa minha resposta para você), o Saramago nos mostra que pode haver encantamento na falta, no básico, na simplicidade mais cheia de quentura, e nos lembra que a beleza vem da forma como agimos com as pessoas à nossa volta, e do que somos capazes de fazer com o que nos acontece.

Há criadores de porcos que entendem de pessoas bem mais do que muita gente de estudo. Para quem aprende a reparar nas funduras, e não só nas superfícies das pessoas, das coisas e das situações, o encantamento mora em todo lugar, mesmo com tudo o que ele tenha de mais escasso, sofrido e doído.

Também tenho a benção de conhecer um bocado de gente sábia que quase não frequentou a escola nem nunca abriu de verdade um livro, mas que foi educada para o encantamento. É claro que não é pela falta de livros que essas pessoas passam a ter sabedoria. A literatura, o cinema, a música, o teatro, as artes plásticas, tudo isso serve para aprofundar a nossa sensibilidade e provocar cada vez mais em nós um inevitável apego à vida, principalmente no que ela tem de mais belo, humano e essencial.

No seu discurso, o Saramago contou como descobriu que a avó dele também acreditava em sonhos. “Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: ‘O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer’. Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada”, disse o escritor.

“A consolação da beleza revelada”… Que frase reveladora… Quantas vezes a beleza nos consola, nos ampara, nos amansa, nos suaviza, nos transforma e nos salva diante das tristezas, dos vazios, das raivas, dos tropeços, das ansiedades, dos pavores e das dores aparentemente mais irremediáveis? Ler esse discurso do Saramago deu clareza no dia e uma vontade irresistível de tirar um tempo para olhar e escutar belezas hoje. À noite, vou assistir ao filme Peixe Grande, do Tim Burton, pela centésima oitava vez, pronto, já decidi.

E que quando se aproxime o momento de eu ir embora (sem pressa nenhuma, já deixo claro), eu possa sentir pena, e não medo, de deixar tudo o que há de mais belo por aqui. Não uma pena de lamento, raiva e culpa, mas sim com a gratidão mais amorosa, pacificadora e deliciosa de todas.

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