Entrevista à Revista Crescer

Livros pra uma Cuca Bacana

Márcio Vassallo e sua princesa de morro – O escritor está sempre em busca de personagens perdidos

Cristiane Rogerio


O jornalista Márcio Vassallo é daqueles escritores sempre “em busca de um personagem perdido”. Desta vez, ele encontrou Valentina, uma bela princesa que vive em um castelo: um castelo em pleno morro do Rio de Janeiro. O livro de mesmo nome, lançado pela Editora Global, está na lista dos 30 Melhores Livros Infantis de 2007/2008.

É na poesia que ele encontra um jeito de dizer que podemos nos sentir reis, príncipes e princesas não importa o lugar que estivermos. E aqui ele contar como esta história aconteceu nele. E as crianças aprovam, vejam.

Por que escolheu este tema, este ambiente do morro carioca?
 Na realidade, quem me diz quais são os temas das minhas histórias são os leitores, dependendo da forma como o texto reverbera em cada um. A verdade é que eu não busco temas para as minhas histórias, eu busco personagens, e às vezes os personagens me buscam. A não ser quando escrevo um livro temático, como Mães: o que elas têm a dizer sobre educação (publicado pela editora Guarda-chuva), em que o tema (a educação do ponto de vista das mães) foi que me levou às minhas personagens (as dezoito mulheres que entrevistei). Mas quando escrevo ficção, são as personagens que me trazem os temas, não são os temas que me trazem as personagens.

Qual é a história da história deste livro? Quem é Valentina?
 Valentina é uma princesa que mora na beira do longe, depois do bem alto, longe de tudo. E a menina tem vontade de conhecer tudo de perto. Ela tem orelha de abano, para escutar cochicho de nuvem; tem perna comprida, para pular pensamento, e não se conforma com o fato de que os pais dela, a rainha e o rei, tem que descer todos os dias do castelo, muito cedo, para trabalhar. No final, o leitor descobre que o castelo da Valentina fica no meio de um bocado de outros castelos, num morro do Rio de Janeiro.
A idéia de escrever Valentina começou a ganhar forma depois que eu li uma entrevista do jornalista Zuenir Ventura. Nessa entrevista, o Zuenir dizia que tinha se espantado de encontrar uma menina linda numa favela do Rio, e ressaltava que, logo depois, ficou ainda mais espantado com o seu próprio espanto, claro. Aquela menina que o Zuenir viu, passou a rondar a minha imaginação. Afinal, por que será que, no inconsciente, nós achamos que a beleza tem geografia e que não cabe em determinados lugares? Por que será que uma menina bonita, com jeito de princesa, mas jogada na rua, ou morando num lugar tão desamparado, em geral comove muito mais as pessoas? Mas só consegui escrever a história depois de muito tempo, porque eu não achava um nome que fosse perfeito para a minha personagem. E essa personagem só poderia existir se tivesse um nome. Até que, na véspera de uma visita a um colégio, recebi o e-mail de uma garota, então com dez anos de idade. Ela me dizia que estava feliz de saber que iria me conhecer no dia seguinte e que tinha lido os meus livros. Depois, me mandava um beijo no final da mensagem e assinava: Valentina. Então, dei um suspiro fundo, parei tudo o que estava fazendo e escrevi a história toda naquela mesma tarde.

O que você já colheu dele dos pequenos leitores?
 Um dia desses, numa escola, uma menina me perguntou: “como é que pode uma princesa ter orelha de abano e perna comprida demais?”. “As princesas são perfeitas”, ela me disse, como se a beleza não fosse incerta. E depois, essa mesma menina me revelou que tinha adorado se ver na Valentina. “Porque descobri que eu posso ser uma princesa, mesmo tendo um nariz grande assim, ó”. E o nariz dela realmente era grande e muito charmoso. Era justamente o que dava personalidade no rosto dela. Mas como será que crianças, adolescentes, pais, professores, educadores em geral, estão lidando com os estereótipos de beleza que rondam os pensamentos das pessoas, principalmente das meninas, no mundo de hoje? Por que será que uma princesa não pode ter cabelo assim, ou assado, ser gordinha, sardenta, ou nariguda…

Como é o trabalho de jornalista, pai e escritor de livros para crianças? Como estes papéis se misturam e se separam em Valentina?
 Acho que tudo o que inspira a minha vida me inspira para escrever. O meu trabalho de jornalista, principalmente quando entrevisto pessoas, e a minha convivência com o Gabriel, meu filho, de 7 anos, são fontes permanentes de inspiração, não só para escrever, mas para viver com ainda mais poesia no meu dia-a-dia.

E o que você me diria sobre o trabalho da Suppa, sempre tão rico em texturas e sobre como a apresentação, a estética de um livro infantil conta tanto.
 A Suppa tem um traço delicioso, sensível, cheio de frestas para a imaginação da gente entrar e se espalhar ainda mais. No Brasil, as edições dos livros de literatura infantil estão cada vez mais caprichadas e, de fato, o cuidado com a edição é muito importante para seduzir o leitor. Entretanto, para realmente encantá-lo, é essencial que a história em si, a linguagem, a forma do texto seja surpreendente. Afinal, nem tudo o que surpreende é encantador, mas tudo o que nos encanta, de algum modo, antes de tudo, nos surpreende. Nesse sentido, também gosto muito de ilustrações que me dão susto, sem obviedades, com beleza, identidade e poesia.

Do ano passado, o que mais te atraiu em lançamentos de literatura infantil?
 Passei o ano passado quase todo na estrada, por conta dos meus lançamentos e também das palestras e oficinas que me convidaram para realizar. Não consegui acompanhar a produção de literatura infantil com a lucidez necessária. Mas sugiro que o leitor da Crescer, desde já, anote o nome da escritora Janaína Michalski, que vai estrear em breve, pela editora Nova Fronteira, com Onde o sol não alcança, um livro absurdo de bonito, que conta a história de amizade entre duas meninas vizinhas, e de um muro que as aproxima.

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